segunda-feira, 19 de julho de 2010

“Dorme neném que a cuca vem pegar”

Uma das perguntas que os antropólogos mais fazem é de onde terá vindo a baixa auto-estima do brasileiro. Tudo “lá fora” é bom. Tudo “aqui dentro” é ruim. Quando uma coisa é muito boa, bonita, funciona, dizemos “nem parece o Brasil”.

Várias podem ser as origens do auto-flagelo que nos impomos falando mal de nós próprios, uma delas vem da infância. É disso que quero comentar.

No mundo inteiro as crianças adormecem ouvindo músicas doces e acalentadoras do espírito. O famoso “Acalanto de Brahms” diz:

“Boa noite, meu bem, dorme um sono tranqüilo. Boa noite, meu amor, meu filhinho encantador... que uma doce canção venha o sono embalar” .

E como adormece a criança brasileira?

“Dorme neném que a cuca vem pegar, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar...”. Isto é – largaram você sozinha aqui, abandonaram você! Ou ainda:

“Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta!” Ou dorme ou vem o boi da cara preta pegar você.

E outras músicas “infantis” brasileiras – todas do tipo assustador:

“A canoa virou, por deixá-la virar, foi por culpa do (nome da criança) que não soube remar.” Ou seja, você nem bem fez dois anos e é já culpado por virar uma canoa. Ou ainda:

“Ciranda, cirandinha.... o anel que tu me deste era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou!” Ou ainda:

“O cravo brigou com a rosa.... O cravo ficou ferido e a rosa despetalada!”
“Vem cá, bitu, vem cá, bitu.... Não vou lá, não vou lá, não vou lá, tenho medo de apanhar.”

Como vê o leitor, nada de acalantos de ternura. O negócio é assustar a criança e mostrar a ela, desde criancinha, que a vida é dura e ninguém está aqui para ajudar você.

A única vez que o brasileiro poderia vencer (embora fazendo uma coisa errada) também perdeu: “Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu!” Nem para matar um gato você serve, pois o gato não morreu!

Com tanto “susto” desde a infância, como queremos que o brasileiro tenha uma auto-estima elevada? É quase impossível!

Graças a isso tudo, já diziam Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre e outros estudiosos é que o brasileiro tem a auto-estima baixa e não há o que faça com que ele acredite em si mesmo ou consiga enxergar o lado positivo das coisas. Toda a nossa infância é permeada de histórias macabras em que a criança é sempre vitimada, o bom sai perdendo, a punição é certa e o fracasso inevitável.


Daí o nosso medo de falar bem de alguém. O medo de elogiar. Sempre desconfiamos do sucesso e acreditamos no fracasso. Se o governo publica uma estatística positiva, imediatamente duvidamos. Se for negativa, não só acreditamos como passamos pra frente como um comentário sarcástico.


Com essa auto-estima baixa, vamos fazendo a melhoria contínua do nosso sofrimento e esperando pela cuca que um dia virá nos pegar.

Autor: Luiz Almeida Marins Filho

Disponível em: http://colunistas.portalradar.com.br/post/e2809cDorme-nenem-que-a-cuca-vem-pegare2809d.aspx

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