quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Movimento Montessori Contemporâneo Conhecendo fundamentos, derrubando mitos





Por Edimara de Lima
Publicado por A Revista do Educador Direcional Escolas

Maria Montessori colocou entre os princípios do seu sistema
educacional a Educação para a Paz. Uma Paz não figurada na ausência
de guerras, mas resultante do equilíbrio e do respeito. A realidade
que hoje vivemos comprova a necessidade desta proposição e a sua
importância para a sobrevivência do homem e do planeta.
 A linha da história do Homem mostra que nos primórdios
dos tempos sua visão era teocêntrica - creditando aos deuses o
direcionamento dos acontecimentos naturais e humanos; milênios
depois adquire a visão antropocêntrica - trazendo para si a possibilidade,
com poderes ilimitados, para explorar a natureza, a vida vegetal e
animal. Iniciava-se o caminho da exploração do Homem pelo próprio
Homem. Se na primeira hipótese a responsabilidade era do divino,
na segunda o Homem toma essa responsabilidade, mas com o único
objetivo de servir a si mesmo – os resultados temos assistidos quase
impotentes. E a atual destruição da vida nos leva de volta à Montessori
– que prevendo o fi nal deste caminho nos propõe uma nova visão à
qual podemos chamar de biocêntrica: com o entendimento da  vida
como foco de toda atividade humana, como  forma de preservação do
homem e do ambiente capaz de nos permitir viver.
 “A vida mantém a vida”, foi uma das afi rmações de Montessori; esta
frase aparentemente simplória delega ao Homem - vida detentora da
inteligência racional do planeta - a responsabilidade pelas outras vidas
que a Terra acolhe e mantém. E neste ponto cabe uma pergunta: como
preparar um ambiente que eduque o Homem responsável pela vida?
Nossa resposta é também aparentemente simplória: seguindo os
preceitos da Dra. Montessori!

As classes de uma Escola devem privilegiar a cooperação e não a competição,
o respeito aos seus componentes vivos e não vivos; nossas
salas devem ser templos dedicados à ética e à moral.
Na educação infanto-juvenil está a esperança de mudanças sociais
signifi cativas. A Paz, descrita por Montessori, necessita da Liberdade e
esta é um dos nossos pilares metodológicos. A liberdade da qual falamos,
e temos instalada nos ambientes de aprendizagem montessorianos,
necessita do limite, que pode advir de outras liberdades; do equilíbrio
destas nasce a liberdade maior, a que almejamos. A vida social impõe
regras e leis - da polidez ao direito do outro -, e são estes quesitos que
permitem à criança emergir do egocentrismo à sociabilidade.
Mário Montessori Jr. a conceitua bem no texto: “O verdadeiro grupo
permite que cada membro sinta-se livre para ser ele mesmo, ao mesmo
tempo em que cada indivíduo ajusta sua própria (personalidade)
liberdade em favor do bem estar geral, a excessiva liberdade individual
leva ao caos. A excessiva uniformidade imposta pelos adultos leva a um
conformismo impessoal ou à rebeldia” [1].

Professores, diretores, coordenadores, funcionários, famílias,
crianças e adolescentes que fazem o Sistema Montessori aprendem
a conviver com diferenças explícitas e implícitas, enfrentando e
minimizando suas próprias diferenças; somos um espaço aberto à
integração, a uma sociedade mais sadia, onde todos contribuem com o
melhor de si mesmo e podem usufruir das conquistas comuns.
Solidariedade se aprende em criança, solidariedade se constrói na
Escola. Ser solidário é fruto dos modelos que podemos imitar e admirar,
e da prática que exercemos em nossas vidas desde crianças.
Trabalhamos na aceitação das diferenças orgânicas e cognitivas,
mas também trabalhamos para transpor as diferenças sociais.


Devemos procurar o equilíbrio na distribuição da riqueza material e
cultural, dando a cada aluno a competência necessária para ser um
cidadão produtivo e que tenha a seu alcance os recursos necessários
a uma vida digna. Conscientizar-se da triste realidade social que
nos cerca, não basta; precisamos desenvolver mecanismos para
modifi cá-la e para isto o conhecimento dos direitos e dos deveres
da cidadania é essencial.

A escola montessoriana está preparada para construir o Novo
Homem, pois os pilares em que se baseia são os que sustentarão as
gerações vindouras: auto-educação e educação cósmica aliadas a uma
visão científi ca do processo educacional nos permitem a cada dia viver
o nosso objetivo maior: conviver harmoniosamente com a igualdade
e a diferença
 [2]“... a humanidade se constitui, sob muitos aspectos, uma
nação única. Inúmeras são as provas desta unidade. Seja do ponto
de vista econômico, seja do ponto de vista material e intelectual.
A interdependência entre os vários povos criou sua unidade e a
demonstraram, até mesmo as guerras modernas: o vencedor hoje não
enriquece com a vitória e o vencido pesa sobre ele, em passividade...”
Maria Montessori, no início do século passado, anteviu, de forma
prodigiosa, os problemas que enfrentaríamos e nos legou um caminho.
Montessori preocupou-se com o desenvolvimento da competência
cognitiva aliada ao desenvolvimento afetivo, buscou a competência
acadêmica calcada no desenvolvimento moral e ético; buscou a aliança
entre um Mundo Novo e um Homem Novo, o equilíbrio que reside na
distribuição justa da riqueza gerada pelas novas tecnologias, na Paz, e
que permite o usufruto desta realidade.


José Alberto Correia, renomado educador português, em seu
discurso de abertura no 1º Congresso das Licenciaturas em Ciências da
Educação da Universidade do Porto, afi rmou: “A «pedagogia cientifi ca»
de Montessori não é uma ciência para os pedagogos que parta de
idéias pré-estabelecidas sobre a psicologia da criança, mas uma ciência
dos pedagogos cujo método, segundo as suas próprias palavras, «nos
permite libertar a criança para descobrir a sua verdadeira psicologia»; a
cientifi cidade é, neste caso, sinônimo de emancipação que se sustenta
não num educador informado, mas num educador transformador.”

Os grandes educadores são, antes de tudo, transformadores. Maria
Montessori nos deixou um grande legado e a sua maior qualidade
está no preceito de que somos “pensadores” e “atores” da Educação de
crianças e jovens e da nossa própria formação. Não nos basta reproduzir
o que  Maria fez, mas é essencial que tenhamos seu espírito inquieto,
insatisfeito, que só se realiza na eterna busca da vivência cósmica.
O segundo ponto fundamental da pedagogia montessoriana é a
Auto-Educação. Pertencemos a uma estranha corrente que há 100
anos afi rma que a função do professor não é ensinar, mas possibilitar o
aprender. Somos possibilitadores do desenvolvimento humano, somos
orientadores da aprendizagem, somos guias da infância e da juventude
e por isso  somos eternos aprendentes.

Montessori, mais uma vez, se antecipou à ciência que impregnava
o seu tempo, e revelou a capacidade de auto-aprendizagem inerente
ao ser humano. Os teóricos contemporâneos provaram e comprovaram
esta afi rmação de Maria, que  infelizmente não recebe os créditos da
Academia. Nós acreditamos na auto-educação e nossas classes são
construídas a partir deste preceito. Nossas crianças e jovens podem experimentar,
 tentar e estabelecer suas rotas de aprendizagem,
amparados por guias conscientes, competentes e solícitos.
A aprendizagem, a partir do ponto de vista montessoriano, precisa
estar embasada numa teoria que vê o conhecimento como produto de
uma ação do  sujeito-aprendente, e não como produto da transmissão
entre ensinante/aprendente; que não encare o aluno como um
discípulo passivo, mero receptor da sabedoria do mestre;  necessita
de um ambiente que proporcione a ação construtiva, que favoreça a
experimentação, propicie vivência, que desafi e e estimule a busca do
conhecimento;  o professor precisa conhecer “as formas de aprender”
do aluno para adequar-se ao seu nível de desenvolvimento e desafi á-
lo a superá-lo; a Auto-Educação, condição essencial do Sistema
Montessori, só acontece num ambiente democrático onde pensar não
é proibido e aprender seja um prazer.

Escola Montessoriana de Berlim

Os documentos do Ministério da Educação do Brasil, calcados na
experiência da reforma espanhola, recomendam a utilização de ciclos;
a utilização de classes multi-idades ou agrupadas, ou multi-seriadas
é outro preceito montessoriano que vigora igualmente há 100 anos.
Passado um  século,  muitos ainda vêm nesta forma uma revolução tão
transformadora que a acham impossível. Espero que os montessorianos
brasileiros convidem os técnicos estatais, os dirigentes educacionais de
suas cidades e estados, para que conheçam “in loco” as nossas salas
agrupadas. Podemos e devemos compartilhar nossos conhecimentos
assim como estamos abertos às críticas que nos trarão aperfeiçoamento
das nossas classes; o agrupamento privilegia a diversidade, permite o
acompanhamento individual e impede a exclusão.
A pedagogia, a psicopedagogia e a psicologia nos falam de um
sujeito cognoscente, que elabora o seu conhecimento a partir da
observação, da construção e da recepção, dentro de estruturas
propiciadoras da interação social e que contenham os instrumentos
necessários para o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo.
Piaget afi rmou que o conhecimento é construído na relação do
aprendente com o objeto; as salas montessorianas são as que mais refletem
este pressuposto, pois nossas atividades são individualizadas
ou em pequenos grupos. Todos falam da importância do material
concreto nos períodos que antecedem o uso genérico da abstração,
mas poucos usam estes instrumentos com a intensidade e propriedade
das Escolas Montessori.

Os procedimentos do aprender, tão explorados pelos teóricos
espanhóis, são exaustivamente utilizados nas salas montessorianas.
O aprender a “fazer” sempre foi valorizado pela sala montessoriana;
nas nossas escolas não existe a desqualifi cação do trabalho manual e
todas as competências são igualmente desenvolvidas. Mais uma vez
lamento que as universidades brasileiras releguem a segundo plano a
contribuição de Montessori, mas ao mesmo tempo pergunto por que
ficamos calados frente a tão gritante discriminação?

A Educação Montessoriana sempre analisou os três ângulos da
aprendizagem: posturas, procedimentos e conceitos. A excelência
acadêmica aliada à prática cotidiana à serviço da Paz e da justiça social.
A busca da comprovação científi ca para seus pressupostos foi a
batalha constante de Montessori por toda sua vida. Os pesquisadores
que a sucederam revalidaram suas afi rmações, Howard Gardner,
em seu livro “Estruturas da Mente”, faz referências às “janelas de
oportunidades”, conceito similar ao de período sensível; Edgar Morin
e Maturana exploram a transdisciplinaridade como preceito a uma
aprendizagem signifi cativa. O conceito da aprendizagem transdisciplinar
pode ser comprovado nas salas montessorianas cotidianamente: nossos
materiais permitem, usando um termo recente, a navegação por todas
as áreas do conhecimento - basta que os conheçamos em profundidade
e não fi quemos presos à nossa própria aprendizagem inicial.

A busca contínua do nosso próprio aprendizado anda
esquecida. Os cursos de formação de professores são a primeira de
muitas etapas; estudar permanentemente é a condição essencial ao
educador montessoriano.
Há alguns anos atrás, Salvador recebeu os diretores das escolas
da Organização Montessori do Brasil, e entre os palestrantes
convidados estava Cipriano Luckesi, ícone nos meios educacionais
brasileiros. Luckesi nos disse, nessa ocasião, que estudou por muitos
anos o livro “A Criança”, da Dra. Montessori. Eu fi co a imaginar
por que alguns dos nossos jovens professores se contentam com
uma única leitura? Talvez porque nossos cursos de pedagogia se
contentem com a leitura de alguns capítulos de obras que exigiram
uma vida para serem construídas.
A Sala Montessori não aceita o trabalho amadorístico. Ela pede,
exige cientifi cidade, e esta postura é alimentada cotidianamente,
pela leitura, pela discussão, pelo debate. A observação de sala é outro
pilar metodológico, mas uma observação apoiada e respaldada pelo
conhecimento, pela teoria. Nossas observações adquirem signifi cado
quando inseridas no contexto teórico; atrevo-me a dizer que o
“achismo” é uma das poucas proibições à qual devemos atender.
Muitas vezes encontro professores que possuem páginas e páginas
de anotações, mas estas não são alavancas de desenvolvimento da
postura científi ca do educador.


Observo para interferir com maior e melhor adequação; observo
para melhor preparar o ambiente; observo para melhor orientar. Minhas
anotações devem estar a serviço da criança e não do cumprimento
de uma tarefa que, despida destes signifi cados, é tediosa e maçante.
A observação é o primeiro passo da refl exão e esta antecede a ação.
Observar, refl etir e agir - esta é a seqüência do mestre montessoriano.
Aprender sempre e se apropriar das conquistas das ciências é
uma arte a ser cultivada pelos montessorianos. Incorporar novos
conhecimentos não signifi ca, necessariamente, o descarte do antigo. A
sabedoria consiste em fundir o novo e o velho, a tradição e a renovação,
sem por isso macular princípios que se comprovem universais.
Celma Pinho Perry, em palestra realizada ao Grupo de Consultoria
da American Montessori Society, em junho de 1980, sintetizou
brilhantemente esta postura:
“Ao escolher ser montessoriana:
...........não renunciei ao meu direito de pensar,

...........não recebi um sistema completamente fechado,
...........não recebi um tesouro que tenho que esconder e conservar
para não perdê-lo, mas sim, recebi uma introdução à brilhante visão
desta mulher que paciente e apaixonadamente  estudou e deixou
uma importante contribuição ao mundo da educação.
Prometi, a mim mesma, continuar a tradição que ela iniciou,
seguindo suas próprias diretrizes:
..............aberta às novas revelações da observação,
..............consciente do mundo científi co e suas contribuições,
..............dedicada à mudança e à contínua adaptação.
...Demorei a compreender como Maria havia trabalhado; quanto
havia estudado, pensado, escutado. Pouco a pouco fui entendendo
que eu teria que seguir seus passos, continuando e aprofundando
seu trabalho (e não o repetindo).”
Ser montessoriano é, pois, trilhar os caminhos de Maria Montessori,
observando, estudando, descobrindo novos caminhos e instrumentos.
Esta é a grande herança que nos deixou; possível a todos, adequada a
qualquer tempo e a qualquer espaço e, para construir o Homem Novo
para um Novo Tempo, temos que usufruí-la montessorianamente...
“com Paz, pela Paz e em Paz”.


SOBRE A AUTORA DESDE ARTIGO: Edimara de Lima é especialista no Sistema Montessori de Educação; Diretora Consultiva da Organização Montessori do Brasil (OMB); Coordenadora Científica do Saber-Congresso de Educação do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo; Diretora Pedagógica da Prima-Escola Montessori de São Paulo.E-mail: edimara@primamontessori.com.br




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