sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A Moral na Educação Infantil

O papel de quem educa para a formação moral

Embora exista bom grau de concordância a respeito da educação moral na criança e suas conseqüências na vida adulta, observa-se que tal fato ocorre superficialmente na prática, e não com o necessário vigor a tal formação. Ou seja, vários dos que concordam sobre a importância da moral no desenvolvimento da pessoa parecem não empreender essa tarefa com a dedicação que lhe é condição pertinente. Moral, segundo Cabral e Nick (2000), “é o conjunto de normas e padrões pessoais de conduta do indivíduo que o fazem distinguir o bem e o mal; ou, mais freqüentemente, os padrões do grupo com que a pessoa se identifica”.
Torna-se, então, essencial a compreensão acerca de como a moral surge no ser humano, a fim de se estabelecer com maior alcance o papel educacional que os pais têm sobre os filhos. Tal relevância é encontrada nas descrições de Aristóteles (1985, p. 40):
“[...] a virtude moral é adquirida em resultado do hábito. Não é, portanto, nem por natureza nem contrariamente à natureza que as virtudes se geram em nós; antes, devemos dizer que a natureza nos dá a capacidade de recebê-las, e tal capacidade se aperfeiçoa com o hábito”.
Estimular a criança a exercitar cotidianamente a moral é ação educacional necessária ao estabelecimento das virtudes que se almeja para ela. Percebe-se o empenho que deve ter o responsável por essa educação, empregando energia na convivência, exemplo, consistência e certa obstinação. Tais aspectos implicam superar o desprazer presente na educação, conforme Aristóteles (1985, p. 43) ao citar Platão:
Com efeito, a excelência moral relaciona-se com prazer e sofrimento; é por causa do prazer que praticamos más ações, e é por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e de sofrermos com as coisas certas; assim deve ser a educação correta.
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A relevância do papel de quem educa é crucial e de tal sorte é também a chance que a criança possui num dado período de sua vida. Assim sendo, caso exista boa educação na infância, os resultados tendem a ser mais favoráveis ao desenvolvimento de virtudes.
Toda virtude é gerada e destruída pelas mesmas causas e pelos mesmos meios, do mesmo modo como acontece com toda arte: tocando lira é que se formam os bons e os maus músicos. Isso se aplica igualmente aos arquitetos e a todos os demais: construindo bem, tornam-se bons arquitetos; construindo mal, maus. Com efeito, se assim não fosse, não haveria necessidade de mestres, e todos os homens teriam nascido bons ou maus em suas profissões. E do mesmo modo sucede com as virtudes; pelos atos que praticamos em nossas relações com outras pessoas, tornamo-nos justos ou injustos; pelo que fazemos em situações perigosas e pelo hábito de sentir medo ou de sentir confiança, tornamo-nos corajosos ou covardes. [...] Em outras palavras: nossas disposições morais nascem de atividades semelhantes a elas. É por essa razão que devemos atentar para a qualidade dos atos que praticamos, pois nossas predisposições morais correspondem às diferenças entre nossas atividades. E não será desprezível a diferença se, desde a nossa infância, nos habituarmos desta ou daquela maneira. Ao contrário, terá imensa importância, ou seja, será decisiva (Aristóteles, 1985, p. 41).
O papel de quem educa para a formação moral se estabelece na convivência com quem é educado. La Taille (2002) descreve o cenário da Educação Infantil apontando as duas grandes fontes educacionais da criança — família e escola — como agentes que devem tornar claros os seus valores e suas definições sobre uma vida plena. Siqueira Neto (2005) aponta que:
o número de crianças com pouco contato nessa esfera do desenvolvimento vem aumentando, haja vista o distanciamento que ocorre entre pais e filhos. A educação perde terreno nessa relação já enfraquecida, em que a responsabilidade primária (dos pais) está sendo passada para a secundária (escola). As razões desse fenômeno vão desde o conceito errôneo que muitos pais têm a respeito do eixo liberdade–limites até o comprometimento com as suas atividades profissionais em virtude do dinheiro e do próprio desenvolvimento.
Os pais, educadores ou responsáveis têm enorme responsabilidade sobre esse tipo de formação. Não é sem razão o incontável número de crianças e adolescentes contemporâneos que se encontram distantes do desenvolvimento moral. Em sua maioria, eles não praticam atos virtuosos e se enquadram avidamente em comportamentos que oferecem prazer, relacionados ao vício. O crime é mais prazeroso do que a sua recusa em nome de qualquer virtude, sobretudo no caso em que a dimensão da corrupção não permite ser calculada em razão de seu descontrole.
A importância sobre o conhecimento da moral
Deve-se considerar, conjuntamente à prática da educação moral, o efeito que é produzido pelo conhecimento que se tem acerca de suas implicações na vida social. Trata-se de se agir, de uma maneira ou de outra, conforme aquilo que se sabe conscientemente. Para Sócrates (2004), quem sabe o que é bom acaba fazendo o bem. Ele acreditava que o conhecimento do que é certo leva ao agir correto. E só quem faz o que é certo — assim dizia Sócrates — pode se transformar num homem de verdade. A capacidade de distinguir entre o certo e o errado está na razão, e não na sociedade. Descartes (2000) corrobora ao afirmar: “O erro não é o simples defeito ou a falta de alguma perfeição que não me é devida, mas, antes, é uma privação de algum conhecimento que parece que eu deveria possuir”.
Exercitar a moral não gera apenas a ação, mas também forma a consciência a seu respeito. Quanto mais se desenvolve a prática, tanto mais se amplia o saber teórico. Dessa feita, a teoria adquirida estimula também a sua ação moral correspondente. Esse movimento dialético entre o que se compreende e o que se faz na esfera moral proporciona uma visão cada vez maior e assegura, à pessoa que vive tal processo, graus de convicção diferentes com o passar do tempo.
Um estudo realizado acerca do desenvolvimento moral demonstra a progressão pela qual passa o ser humano. O teórico Lawrence Kohlberg, citado por Bee (1997, p. 335), descreveu a moralidade em três níveis e seis estágios, como pode ser visto na tabela da página ao lado.
Piaget (1977) escreveu sobre a noção de justiça na criança, ao referir-se a uma oposição existente entre dois tipos de respeito e, conseqüentemente, entre duas morais: a de obrigação e a de cooperação. Uma trata do dever; a outra, do respeito mútuo. Quando a criança desenvolve uma formação baseada na justiça de cooperação, é possível que ela possua um senso de justiça igualitário ao longo de sua vida.
Com a educação e o tempo, o ser humano é capaz de experimentar diferentes impressões acerca de seu papel moral em relação aos outros de seu convívio, podendo, inclusive, criar um modelo particular de articular lei e prática moral, por regra e exceção. A sua consciência determina o nível moral em que se encontra, levando-o a agir em conformidade a ela.
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NÍVEL 1 MORALIDADE PRÉ-CONVENCIONAL
Estágio 1 Orientação para a obediência e a punição
A criança decide sobre o que é certo com base naquilo pelo que é punida. A obediência é valorizada por si só, mas a criança obedece porque os adultos estão em superioridade.
Estágio 2 Individualismo, propósito instrumental e troca
A criança segue regras quando se trata de algo de seu interesse imediato. O que é bom é o que traz resultados prazerosos. O certo é o justo, o que constitui uma troca legal, um acordo, um trato.
NÍVEL 2 MORALIDADE CONVENCIONAL
Estágio 3 Expectativas interpessoais mútuas, relações e conformismo interpessoal
A família ou o pequeno grupo a que pertence a criança torna-se importante. Ações morais são aquelas que atendem às expectativas alheias. “Ser bom” torna-se importante por si só, e a criança, geralmente, valoriza a confiança, a lealdade, o respeito, a gratidão e a manutenção das relações mútuas.
Estágio 4 Sistema social e consciência (lei e ordem)
Uma mudança no foco da família e de grupos próximos do jovem para a sociedade em geral. Bom é cumprir os deveres com que alguém concordou. As leis são para ser preservadas, a não ser em casos extremos. Contribuir para com a sociedade também é visto como bom.
NÍVEL 3 MORALIDADE COM PRINCÍPIOS OU PÓS-CONVENCIONAL
Estágio 5 Contrato social ou utilidade e direitos individuais
Agir de modo a alcançar “o bem maior para o maior número de pessoas”. O adolescente ou adulto está consciente da existência de visões e valores diferentes, de que os valores são relativos. As leis e as regras devem ser preservadas para que se mantenha a ordem social, mas elas podem ser modificadas. No entanto, há alguns valores básicos não-relativos, como a importância da vida e da liberdade de cada um, que devem ser preservados de qualquer maneira.
Estágio 6 Princípios éticos universais
O adulto elabora e segue princípios éticos que ele escolhe para determinar o que é certo. Pelo fato de as leis, normalmente, estarem em conformidade com tais princípios, elas devem ser obedecidas; entretanto, existindo alguma diferença entre a lei e a consciência, esta domina. Nesse estágio, os princípios éticos seguidos são parte de um sistema de valores articulado e integrado, analisado com cuidado e consistentemente seguido.
A consciência acerca da Inteligência Ética
Tendo em vista o processo de desenvolvimento moral, cabe-nos refletir exaustivamente a respeito de sua importância na Educação Infantil, como prática, forma preventiva para as relações sociais e ação formadora de virtudes. Tais percepções podem motivar ao empreendimento educacional aqui pretendido. As motivações repousam no fato de o ser humano ser influenciado externamente pelas regras sociais e internamente pelo grau de consciência conquistado. Contudo, ao analisar certas experiências de vida, perceber-se-á que não se consegue relacionar diretamente causa e efeito nas ações que empreendemos. Ou seja, nem sempre obtemos resposta virtuosa à virtude que oferecemos e nem sempre se recebe justiça por injustiça cometida. Surpreendentemente, em épocas aleatórias, recebemos tanto justiça quanto injustiça, sem enxergar as causas mais imediatas ou próximas. Ficamos à mercê da sorte, conforme justificamos.
Saber acerca da moral e de suas conseqüências não é o suficiente para se obter ainda mais consciência a seu respeito. Em nível inconsciente, o psiquismo opera alguns processos, com os quais tomamos contato aos poucos, desde as descobertas realizadas por Freud em seus estudos psicanalíticos. Tomando por base algumas de suas descrições e enveredando por novas pesquisas, é possível inferir sobre a existência de um processo psicológico denominado Sistema Psíquico Auto-regulador, ou Inteligência Ética, cuja finalidade é a de auto-regular os pensamentos e as ações para o desenvolvimento da moral e do equilibrado convívio social.
O funcionamento se dá por meio da ativação de culpa cometida; seja ela por pensamentos, sentimentos ou comportamentos, a qual cria uma demanda corretiva tendo por impulso o narcisismo equilibrado. Zelador da busca pela perfeição, que, a seu turno, aciona o masoquismo moral para efetuar na prática tal ajuste, levando a pessoa a uma determinada sentença por algum período de tempo, a exemplo das situações embaraçosas que nos colocamos sem entendê-las bem. De um lado, temos a nossa natureza para defender aquilo que, em contraposição, o masoquismo moral apresenta enquanto culpa, resultando disso, via de regra, a sentença ou punição como veredito (Siqueira Neto, 2005b).
À medida que avançamos em consciência e em ações morais — entendendo aspectos conscientes pessoais e sociais e inconscientes do processo psíquico —, maior é a compreensão e o desejo de se educar ainda mais e educar o outro. Então, a responsabilidade faz sentido e a ótica de justiça recebe polimento, permitindo enxergar um pouco melhor cada acontecimento social percebido.
[...] tal o efeito maravilhoso e irresistível da consciência. Obriga-nos a nos denunciarmos, a combatermo-nos a nós mesmos e, na ausência de outra testemunha, depõe contra nós: servindo ela própria de carrasco e fustigando-nos com látego invisível, [...] Diz Platão (428–347 a.C.) que o castigo segue de perto o pecado. Hesíodo (770–700 a.C.) assim ratifica o aforismo: nasce o castigo no momento mesmo em que nasce o pecado (Montaigne, 2004).
Todos estamos sujeitos à intervenção de terceiros; todavia, nos encaminhamos para piores ou melhores situações conforme a nossa ação moral.
Conclusão
Há muito para se fazer em prol do desenvolvimento moral, estudando-o e exercitando-o. A sua aplicação na educação das crianças possui um valor fundamental, haja vista projetar com que tipo de adulto se pretende conviver futuramente. As condições básicas para o exercício da moral estão em seu conhecimento sobre as conseqüências no relacionamento social, na aprendizagem e, especialmente, no exemplo, através dos próprios comportamentos e na consciência adquirida com a teoria e a prática moral e na percepção da auto-regulação que se processa psiquicamente. A responsabilidade de pais e educadores faz a diferença durante a formação educacional. Esse conjunto de aspectos aumenta o grau de domínio que se tem sobre as conseqüências vindouras, proporcionando, dessa forma, opção para escolher melhor o que pensar e agir, levando-se em conta a moral. A inteligência ética se desenvolve conforme se descortina o véu do desconhecimento e se enxergam as razões para viver de maneira a receber equivalentemente pelo que proporcionamos a nós e aos outros. Está na Educação Infantil a enorme oportunidade de investir qualitativamente na moral e influenciar a sociedade a mudanças que hoje são necessárias para a sobrevivência.

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