sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Educadores: Removendo Pedras ou Semeando Flores?


Rosangela Nieto de Albuquerque
Os poemas de Cora Coralina nos convidam a uma deliciosa reflexão acerca do homem, do eu, das escolhas e dos sonhos que nos fortalecem. Essas reflexões nos conduzem a uma análise metafórica do papel do educador, pois as estrofes e os versos nos levam a pensar no processo de resiliência e superação do educador, que, em sua prática pedagógica diária, encontra “pedras no caminho” e, num movimento de construção, vai “juntando as pedras” e constrói uma escada que serve de motivação para cumprir sua função de educar…
Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Cora Coralina
imagem_1Das Pedras
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.
No poema Das Pedras, Cora Coralina enfatiza as pedras que caem sobre o sujeito — aqui representando o educador — que, em seu cotidiano, encontra desafios estabelecidos pelo contexto social atual. As “pedras” que estão presentes no dia a dia da escola — as dificuldades com a indisciplina escolar e com a violência; a falta de estrutura; os conflitos nas relações humanas; o docente que vivencia uma crise de identidade, ora instalada devido aos diversos papéis que tem que exercer — precisam ser removidas. O educador, quase que diariamente, vai removendo as “pedras do caminho” e, num movimento de transformação, vai modificando as “duras e rudes pedras”, esculpindo-as, lapidando-as e organizando-as em degraus de ascensão, de mudança, de construção de um novo paradigma, de transformação social, certamente, da criança, do sujeito, do cidadão, da sociedade. Observa-se, no entanto, que as transformações sociais exigem, dos educadores, uma nova atitude frente ao cenário atual, constituída de uma nova visão dialética, com novos procedimentos comportamentais, isto é, um processo de transformação estrutural que conduz a profundas mudanças na mentalidade, no estilo de vida, na organização social, nos sistemas de produção, nos grupos sociais, na vida cotidiana
de cada sujeito e nos valores das pessoas.
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Nesse sentido, essa realidade provoca, nos educadores, sentimentos, desejos e sensações contraditórios. Ao mesmo tempo que proporciona a esperança, a busca pela novidade, a perspectiva desenvolvimentista, a humanização para a construção de um mundo melhor causa também insegurança e medo. É verdade que o educador vive permeado pelos seus sonhos de transformar e formar cidadãos éticos, calorosos, mais humanos e também técnicos em sua especialização…
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Nesse caminho do processo educativo, existe um educador que vivencia os percalços do coexistir. Esse homem-educador anseia ser feliz e sonha com o ideal de uma escola viva, de uma escola humana, uma escola prazerosa, com sabor de “quero voltar amanhã”. O educador sonha com escola e família juntas, em busca da educação de qualidade, em busca do saber, do conhecimento e do crescimento humano e pessoal. Assim, a escola tem um grande desafio, o de cumprir o seu papel enquanto espaço vivo, de socializar pessoas, de socializar o conhecimento, de oportunizar uma educação de qualidade para todos e de estabelecer a verdadeira inclusão (ora tão incipiente). Para isso, precisa modificar sua prática, estar aberta a mudanças, transformar-se, e não deixar que a sala de aula seja árida… de pedra.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Desse modo, nesse movimento de transformação, a escola constituirá um novo homem, que guiará o futuro da humanidade, portanto, um sujeito cidadão, crítico, reflexivo e humano. Precisamos refletir sobre que homem queremos no futuro. Para Nietzsche, há três tipos de homem: um homem segundo Rousseau, um homem segundo Goethe e um homem segundo Schopenhauer. O homem em Rousseau é rebelde, revolucionário, subversivo; já em Goethe, ele é contemplativo e desapegado; e, em Schopenhauer, é inteligente, voluntarioso, idealista, lúcido, não se deixa abater e supera barreiras. Que homem queremos para o futuro? Que homem a escola busca formar? É preciso quebrar as pedras e plantar flores…
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.
Já no poema Mascarados, de Cora Coralina, observa-se a característica semeadora do educador, que sai “a semear o dia todo” — não somente no ir e vir das escolas, mas nos planejamentos, nos projetos, na práxis pedagógica, nos objetivos propostos — e, nesse ir e vir, vai semeando tomado pelo idealismo de formar, de construir, de desenvolver o educando. Assim, vai semeando… e, de tanto semear, “com as mãos cheias de sementes”, irá plantar para colher os frutos: cidadãos conscientes, éticos, com valores morais, preparados para viver em sociedade e tecnicamente competentes para a vida profissional.
Mascarados
Saiu o semeador a semear.
Semeou o dia todo,
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranquilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo.
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da paz e da justiça.
Cora Coralina
O educador, em sua essência, dá seguimento ao que outros educadores já semearam, pois há uma continuidade do processo cognitivo-formativo, há uma construção do conhecimento pautada na estrutura cognitiva já experienciada. Assim, os esquemas cognitivos vão se articulando numa aprendizagem “por andaime”, vinculada à experiência anterior (conhecimento prévio), ao já conhecido, que, “sobreposta” ao novo conhecimento, oportunizará uma nova aprendizagem.
Piaget, na década de 1920, chamou de estruturas mentais as condições prévias para o aprendizado e utilizou o termo para se referir aos saberes que os alunos possuem e que são essenciais para o aprendizado. E, na década de 1960, Ausubel chamou de conhecimento prévio os conteúdos fundamentais para adquirir novos conhecimentos. Para Ausubel, o que o aluno já sabe refere-se à ideia-âncora, que é a ponte para a construção de um novo conhecimento por meio da reconfiguração das estruturas mentais existentes ou da elaboração de novas estruturas. Para que ocorra a aprendizagem, são necessárias estruturas mentais que se articulem às novas complexidades e também aos conteúdos anteriores que ajudam a assimilar saberes.
Neste contexto, os estudos de Piaget sobre a aprendizagem remetem à Teoria da Equilibração das Estruturas Cognitivas. Essa teoria explica que, no movimento de aquisição de novos conhecimentos, o ser humano passa por um processo de equilibração cognitiva, o que gera a possibilidade de assimilar as informações vindas do mundo externo, acomodando-as em estruturas mentais que são forjadas justamente para refletir esse mundo. Para Piaget, é necessário que haja o processo de desequilibração inerente aos sistemas cognitivos para a construção do conhecimento. Este, através de estímulos, irá alterar as próprias estruturas cognitivas para acomodar os desequilíbrios e chegar a uma nova situação de equilíbrio.
Nos estudos da cognição, não se pode deixar de enfatizar a assimilação e acomodação. A acomodação apresenta a base da teoria da equilibração, isto é, há uma alteração nas estruturas cognitivas que proporciona a construção de novos conhecimentos e, assim, novas estruturas para assimilar conhecimentos cada vez mais complexos. A acomodação é uma necessidade cognitiva para que haja o equilíbrio. Assim, a assimilação ocorre quando o sujeito entra em contato com um objeto ou situação e se apropria dele, ou seja, quando é incorporado às estruturas cognitivas; e a acomodação se dá após a assimilação, quando ocorre uma modificação nas estruturas. Nesse processo de aprendizagem, o educador vai semeando… dando estímulos ao educando… oportunizando a aprendizagem “sem pensar na colheita”…
Ele semeava tranquilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Para Cora Coralina, o semeador deve semear “com otimismo”, semear “com idealismo / as sementes vivas / da Paz e da Justiça”. Nós, educadores-professores de verdade, temos a sensação gratificante quando nossos alunos apreendem, quando têm êxito na vida, quando atingem o sucesso, pois, certamente, a semeadura frutificou, porque foi semeada com alegria, otimismo, e num contexto de cidadania, educando para a paz e a justiça social. Ser educador-professor é colaborar para a construção de seres humanos, que serão homens e mulheres que conduzirão uma nova geração. A educação escolar deve democratizar para todos com qualidade e quantidade os conhecimentos; e, nesse processo de desenvolvimento, o educador, no exercício consciente da sua práxis pedagógica, vai reorientando e aperfeiçoando o seu fazer pedagógico de acordo com o momento histórico e social.
Há tempo para ensinar com otimismo, com amor, com respeito, com humanidade. Ser humano é sentimento, emoção, razão e também respeitar as limitações. Com carinho e afeto nas relações educativas, irá germinar o respeito, que, certamente, facilitará o ensino-aprendizagem.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da paz e da justiça.
Cora Coralina traz uma reflexão sensacional aos educadores no poema Aninha e suas Pedras, a ideia da recriação na vida de cada um através de um processo contínuo: “Recria tua vida, sempre, sempre”. Esse movimento propõe um recomeço… Remove pedras e planta roseiras e faz doces… Recomeça.
Aninha e suas Pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Essa reflexão nos remete às transformações sociais que impõem ações capazes de contemplar novas formas de organização educacional, voltadas para outras formas de pensar, com novas mentalidades, novas posturas, favorecendo a articulação democrática da diversidade e do pluralismo, e com a necessidade de reconhecer que há valores distintos em variados grupos. Essas são ações que ficam na memória das crianças, dos jovens, das gerações…
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens e
na memória das gerações que hão de vir.

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina
Nesse processo de valorização das diferenças, a escola deve ser concebida como um local de processos formativos que priorizam o pluralismo e a coletividade, um espaço de transmissão da cultura, de socialização, de afirmação da identidade cultural e pessoal. A escola tem o desafio, como espaço social, de implantar uma práxis pedagógica embasada na reflexão do sujeito, na conscientização e valorização do saber, na experiência trazida pelo aluno, de oferecer condições de ele expressar seus sentimentos, seus valores e pensamentos. Educar, hoje, requer uma mudança no contexto educacional, no clima escolar, na oferta curricular, nas técnicas e nos métodos de ensino, na avaliação do ensino-aprendizagem e nas expectativas dos professores. A escola deve ser voltada para a liberdade, compreendida como uma formação embasada no respeito à dignidade humana, na tolerância e no fortalecimento da cultura individual.
O educando tem sede de saber e fome de degustar uma escola saborosa, prazerosa e atraente. O educador que educa com sabor proporciona uma fonte para os sedentos de conhecimento e traz para a sala de aula a oportunidade de degustar o agradável paladar do conhecer, do fazer pedagógico, que desenvolve a capacidade de pensar criativamente, o que, sem dúvida, é ofertar água a quem tem sede, remover as pedras e plantar flores.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

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